Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Domingo à tarde

Domingo à tarde

A chuva. 
 
O cheiro a terra molhada lá de fora.
 
O cheiro a café (moído na hora) cá dentro.
 
Um lar.
 
Pouca coisa é tão visual como viver. Não há nada que nos provoque tamanha sensação de liberdade e descanso do que poder viver.
Já nos chega ter de sair todos os dias para enfrentar o mundo com mil caras, com mil formas de ver as coisas, muitas vezes porque tem de ser.
Então agarro-me a isto, bucolicamente a isto. Como se fosse um ritual, uma forma de me convencer que existo, que ainda vivo.
Mas conseguir sentir isto é poder ter tempo para sentir. E falhamos muitas vezes isso.
Não temos tempo.
Não temos tempo.
Não temos tempo.
 
E precisamos. Tanto.

 

O tempo está tão quente

Tão azul e resplandecente

Que chego a acreditar

Que um suspiro é o melhor que 

Posso dar.

 

Aguentam, cantarolando

De fio à meada, concentrados

Os passarinhos que vão passando

E se encontram tão bem

Tão apresentados.

 

E há quem nos queira destruir

Colocando-nos na palma da sua mão

Como se a ternura fosse negociável

E nunca tivessem tido um aperto

No coração.

 

E ganhamos força

Quanta força ganhamos por não desistirmos

De abraçar os passarinhos

Da nossa vida.

Sou das pessoas que quando espirra, quase tem um aneurisma. Tenho quase sempre calor e o frio, primeiro que penetre no osso, precisa de percorrer uma longa distância entre camada adiposa e músculo até lá chegar.

Dois factos que nada servem para o que venho fazer aqui, que é nada. A vida é uma tequila que às vezes nem é bem feita mas que nós provamos, na ânsia de depois publicarmos esse facto, dizendo que não sabe bem mas o importante é estarmos lá.

O sol irrompe nas janelas do comboio. Está tudo "morto" cá dentro, a desejar que batam as dezassete horas para que prossigam com as suas vidas em casa, de onde nunca deviam ter saído.

Nada como o nosso lar, não é?

Two Clear Shot Glasses Filled With Alcohol