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Domingo à tarde

20
Nov19

Fodem tudo

David Marinho

A linguagem é tão perigosa

Que consegue ser indecente.

Fodia-te como me fodem os dias

E dito assim, assusta. Estremece.

Não podes ser tu a dizer estas coisas porque tu não és assim.

Então não posso. É indecente, eu sou indecente e morre a possibilidade de ser livre.

É assim que se sentem os artistas das verdadeiras artes.

Conseguem através um bocado de merda fazer uma criação artística capaz de emocionar a mais relutante de todas aquelas pessoas venenosas que nos aparecem à frente, do qual duvidámos sempre que podiam deixar cair a máscara.

Mas depois roubam-lhes o ímpeto. 

Fodem tudo.

Luta.

 

19
Nov19

Filtro social

David Marinho

Está tudo doido.

Já me tinha habituado à ideia de que as coisas correm à velocidade da luz e que, para apanhar o comboio, bastava um movimento de sorte e ter força para aguentar o puxão.

O problema são os que ficam, que não querem saber da sorte ou do azar e montam o seu acampamento, destilando ódios pequenos que formam um bolo gigante que vai corroendo até ao estômago.

Ser feliz é estar bem. 

Não ser feliz é não estar bem.

E não estar é razão suficiente para procurar estar.

E quando olho à nossa volta, há quem não procure e tenha desistido até. Existem os que se isolam e os outros que fazem questão de partilhar a nuvem negra que as envolve.

E esses destroem o equilíbrio, o bem-estar das coisas, o normal funcionamento. A esses, embora poucos, não me interessa ter na minha vida. Então saio, desligo e deito fora. 

Cada um é responsável pelos seus actos, por deixar a sua boa marca.

E eu filtro, filtro, filtro.

18
Nov19

Regresso na foz

David Marinho

Às vezes desapareço porque o mar chama-me. É qualquer coisa relacionada com os signos que parece ser verdade, então desapareço por uns tempos. 

Mas vejo tudo daqui, da foz do rio num banco gelado de pedra. Os vales que circundam esta vida, as casas caiadas, as pessoas que passam, o veneno que corre nas ruas, vejo tudo.

No entanto ninguém me vê, e vou-me rindo até me fartar. É que ver os outros sem agir é bom até certo ponto, depois tudo se complica.

E hoje vim com palavras. Podiam ser pedras, que o mundo não está para brincadeiras. Mas as palavras são menos pontiagudas.

Mas também podem doer.

Olá, pessoas.

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