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Domingo à tarde

Senta-te, desfruta e serve-te enquanto vou ali fazer uma sestinha

21.Dez.17

Já ninguém precisa das pessoas

David Marinho

Não existe mais amor, não existe mais paixão, só existe o jeitinho desarmado dos beijinhos e abraços. Já ninguém corre o risco, nem se deixa encantar pelo sorriso, nem pelas meias palavras desajeitadas, das saias corridas e das tristezas repentinas. Já ninguém sofre sem que bata, sem que queira vingança ou cometa uma estupidez. O amor passou a ser algo que nos ajuda a pagar as contas, os jantares e as companhias para as festas. Já ninguém perde tempo, já ninguém dá espaço, e as flores vão morrendo à espera que os amores as levem com elas. Já não se leva as paixões para debaixo da árvore, para atrás dos blocos A,B,C,D,E da escola, faça frio, calor ou chuva. Já não há medo, nem susto nem o esgar de tesão que rasgue e prove o suspiro das coisas proibidas.

O que há são ecrãs, vozes fracas, ocas, gestos infantis e mimados, joguinhos de sentimentos, um desmazelo completo de um desatinadinho de merda qualquer. Tudo é estúpido, tudo é lá de trás, porque tudo o que sabemos vem nos livros novos, de pessoas novas que se aventuraram com a sua genitália para escrever. Amar hoje é chacota porque um homem que ama não é homem, mulher que ama é atiradiça. Sexo é quase uma constipação que se apanha porque apanhámos frio nos pés, um brinquedo, disponível para quem quiser usar coisas dentro de outras coisas. Sexo já não se merece, porque sexo parece banal porque vem escrito nos livros.

Já ninguém precisa das pessoas. Só precisam quando o chão lhes foge e aí, no desespero, procuram qualquer porto onde possam atracar. Não respeitam a coerência mas procuram-na nos outros, não abrem mão por ninguém mas esperam sempre alguém que as auxilie. E aí tudo é por amor, por tudo o que passámos, pela nossa história e porque nunca pensamos direito quando partimos um para o outro a quente. Mas a história escreveu-se vazia e as pessoas naturalmente vão-se embora, não é? E o partir desarma, aproxima e desespera. Ninguém quer ver partir, nem por uns tempos nem para sempre.

Por isso, por mim, viverei sempre num mundo paralelo, onde posso respeitar o amor, por mim e pela L. Porque preciso dele e dela e porque viverei também dele e dela. E porque lá posso experimentar ser tudo, ser eu em toda a parte.

2 comentários

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    David Marinho 21.12.2017 20:02

    É isso, falta dar de si e do seu tempo sempre. Abraço
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