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Domingo à tarde

Domingo à tarde

Há pessoas que são cinzeiros humanos. Nota-se-lhes ao longe o cheiro e a marca enraizada da nicotina e do alcatrão, que daria para matar a bicharada toda ao primeiro bafo.

Vício é vício e todos nós temos. Mas existem os que nos fazem mal e os que fazem mal aos outros. E vícios que fazem mal aos outros não deviam existir.

É o que sinto neste momento. Que comi uma sandes de alcatrão, quente, que se vai propagando na sua forma, cor e cheiro à população que compõe a carreira das sete a caminho da capital.

E ninguém me perguntou se tinha fome.

O tempo está tão quente

Tão azul e resplandecente

Que chego a acreditar

Que um suspiro é o melhor que 

Posso dar.

 

Aguentam, cantarolando

De fio à meada, concentrados

Os passarinhos que vão passando

E se encontram tão bem

Tão apresentados.

 

E há quem nos queira destruir

Colocando-nos na palma da sua mão

Como se a ternura fosse negociável

E nunca tivessem tido um aperto

No coração.

 

E ganhamos força

Quanta força ganhamos por não desistirmos

De abraçar os passarinhos

Da nossa vida.

Não diferem muito. Somos nós que em último caso lhe mostramos uma visão pessoal das coisas, com a ligeireza que nos possa caracterizar. É que a fotografia e os livros contam histórias, que narradas como convém ao narrador, é uma história nova, diferente todos os dias. É por isso que nunca dispensei uma estante cheia de leitura e vida e de uma máquina onde possa explorar o mundo.

Às vezes imagino uma forma de estar onde eu possa dividir o tempo entre leituras e uns disparos da máquina. Quanta alegria poderíamos distribuir de uma ideia concebida através da nossa visão das coisas?

E hoje tive essa vontade: procurei nas estantes uma nova leitura e coloquei-a em cima da mesa. Guardei a máquina na mochila e o livro e segui caminho. Descobri várias cidades numa só e sem pressas e, ao final do dia, viajei para Santiago do Chile à boleia de Luís Sepúlveda e acabei a noite no Martinho da Arcada a ouvir Almada Negreiros contar como era a vida no tempo dele.

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