Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Domingo à tarde

Domingo à tarde

Não me lembro quando foi a última vez que me sentei no café para escrever. O barulho das chávenas que batem umas nas outras, o cheiro a café com o cheiro dos bolos, as vozes alheias que aumentam de tom, as notícias que vão morrendo nos ecrãs e que ninguém quer saber, tudo. Os cafés são segundas casas para muita gente, que aqui param para conversar ou simplesmente para ver o mundo avançar no tempo. 

Mas a atenção aqui parece redobrar-se, como se isto, por magia, tivesse uma aura diferente.

Mas o que me trouxe aqui é outra coisa: as pessoas parecem não querer parar por nada. Querem tudo muito rápido, de forma eficiente mas não querem ter o trabalho de analisar, apreciar ou discutir. E a isto acrescenta-se o facto de não repararmos nos outros, nos que precisam, nos que param para ver de fora o que os outros andam a fazer. 

Mas no café param e deve ser por isso que as coisas são diferentes aqui.

Não é de respeito que escreverei, que o respeito é uma coisa erudita que ficou lá para trás há muitos anos atrás. Vamos aprendendo diariamente a viver sem respeito, numa confusão sem precedentes e de forma solitária, só para criar medalhas em todas as vitórias.

Escreverei sobre a forma como as pessoas conduzem a sua própria confiança, demonstrando uma profunda necessidade de atenção e fazendo das outras pessoas parvas. Às vezes vivem de tal forma numa bolha, que filtram os olhos só para aquilo que entendem gostar, e entendem querer só porque sim. Pior é quando conhecemos os meandros da mentira e mesmo assim encaramos o teatro social de uma forma natural, como se nada fosse, só para vermos onde tudo irá parar.

Não podemos dizer tudo, e não falo de lápis azul porque suponho que censurar seja coisa dos antepassados mas temos de ter cuidado, porque julgamos saber tudo e não sabemos nada de ninguém.

As pessoas são um produto interessante da natureza. De tal forma que, aquilo que nós achamos, muitas vezes se vira contra nós e não sabemos reagir. E vamos vendo o barco passar, rindo e confirmando aquilo que achámos sempre: que não presta para nada, mais aos seus joguinhos de prazer que um dia, talvez, acabem por correr mal.

A luta por território, creio ter ficado enterrado nos tempos medievais. Mas não.

 

 

Gosto quando adormeces, quando me dás um pontapé na perna. É como se fosse uma sentença que me avisa que desapareceste do mundo real, para ires para a outra banda, onde poderás sonhar o que quiseres.

Não evito um sorriso descansado, como se o meu papel de protector fechasse ali mais um ciclo, para poder adormecer e quiçá encontrar-me contigo no outro lado. E isto adquire-se com o tempo, com a atenção de quem merece o tempo que despendemos com ela. E o tempo contigo, mais que bem empregue, é transformado em vida que ganho.

Mas não faço questão que agora percas tempo de propósito para analisar os meus vícios. Gostava, agradecia, porque o ego é uma coisa estranha que gosta de ser preenchido. Mas já os conheces tão bem, eu sei.

 

Pág. 1/3