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Domingo à tarde

Domingo à tarde

26 de Fevereiro, 2019

Escrever num café

David Marinho

Não me lembro quando foi a última vez que me sentei no café para escrever. O barulho das chávenas que batem umas nas outras, o cheiro a café com o cheiro dos bolos, as vozes alheias que aumentam de tom, as notícias que vão morrendo nos ecrãs e que ninguém quer saber, tudo. Os cafés são segundas casas para muita gente, que aqui param para conversar ou simplesmente para ver o mundo avançar no tempo. 

Mas a atenção aqui parece redobrar-se, como se isto, por magia, tivesse uma aura diferente.

Mas o que me trouxe aqui é outra coisa: as pessoas parecem não querer parar por nada. Querem tudo muito rápido, de forma eficiente mas não querem ter o trabalho de analisar, apreciar ou discutir. E a isto acrescenta-se o facto de não repararmos nos outros, nos que precisam, nos que param para ver de fora o que os outros andam a fazer. 

Mas no café param e deve ser por isso que as coisas são diferentes aqui.

25 de Fevereiro, 2019

Respeito, qual respeito?

David Marinho

Não é de respeito que escreverei, que o respeito é uma coisa erudita que ficou lá para trás há muitos anos atrás. Vamos aprendendo diariamente a viver sem respeito, numa confusão sem precedentes e de forma solitária, só para criar medalhas em todas as vitórias.

Escreverei sobre a forma como as pessoas conduzem a sua própria confiança, demonstrando uma profunda necessidade de atenção e fazendo das outras pessoas parvas. Às vezes vivem de tal forma numa bolha, que filtram os olhos só para aquilo que entendem gostar, e entendem querer só porque sim. Pior é quando conhecemos os meandros da mentira e mesmo assim encaramos o teatro social de uma forma natural, como se nada fosse, só para vermos onde tudo irá parar.

Não podemos dizer tudo, e não falo de lápis azul porque suponho que censurar seja coisa dos antepassados mas temos de ter cuidado, porque julgamos saber tudo e não sabemos nada de ninguém.

As pessoas são um produto interessante da natureza. De tal forma que, aquilo que nós achamos, muitas vezes se vira contra nós e não sabemos reagir. E vamos vendo o barco passar, rindo e confirmando aquilo que achámos sempre: que não presta para nada, mais aos seus joguinhos de prazer que um dia, talvez, acabem por correr mal.

A luta por território, creio ter ficado enterrado nos tempos medievais. Mas não.

 

 

23 de Fevereiro, 2019

Já me conheces tão bem

David Marinho

Gosto quando adormeces, quando me dás um pontapé na perna. É como se fosse uma sentença que me avisa que desapareceste do mundo real, para ires para a outra banda, onde poderás sonhar o que quiseres.

Não evito um sorriso descansado, como se o meu papel de protector fechasse ali mais um ciclo, para poder adormecer e quiçá encontrar-me contigo no outro lado. E isto adquire-se com o tempo, com a atenção de quem merece o tempo que despendemos com ela. E o tempo contigo, mais que bem empregue, é transformado em vida que ganho.

Mas não faço questão que agora percas tempo de propósito para analisar os meus vícios. Gostava, agradecia, porque o ego é uma coisa estranha que gosta de ser preenchido. Mas já os conheces tão bem, eu sei.

 

19 de Fevereiro, 2019

Comprar casa

David Marinho

Não me passa outra coisa pela cabeça, sou sincero. Mas o processo de compra é das coisas mais chatas e aborrecidas de que tenho memória, só porque uma pessoa não nasceu rica e não pode dar aquele dinheiro todo assim do pé para a mão. 

Pior ainda é saber que as condições até há alguns anos era relativamente mais fácil, com garantias mais enfraquecidas pelo sistema mas que servia na mesma. Agora? Nossa Senhora! 40 anos de guilhotina autêntica, com a cabeça a prémio, e isto se conseguir o dinheirinho todo para pagar a casa ao início porque até conseguir...

É por isso que ser velho com dinheiro tem tanto impacto como ser jovem sem. Há potencial para tudo mas não chega, ou já não chega para tudo - e não interpretem isto de várias forma, está? Já sei como vocês são.

E por isso, para combater o Sistema, é que agora me tornei o Rambo das Finanças, na esperança de ainda conseguir forma de arranjar isto, sem que tenha uma arma apontada o tempo todo. É preciso treino e persistência. Assim seja!

18 de Fevereiro, 2019

És seguro?

David Marinho

É fácil desmascarar as pessoas quando as coisas que assumem são francamente inseguras.

As coisas geram desconforto quando não têm retorno, imediato ou não. Ou por motivos de ego, por motivos de auto-confiança, de auto-estima, de qualquer coisa que coloque numa posição frágil a própria pessoa. É por isso que o humor serve como base para se fugir às fragilidades.

E existem pessoas manipuladas, pessoas manipuláveis e as que manipulam.

As que são manipuladas, vivem fragilizadas.

As que são manipuláveis, vivem a fragilidade em potência.

As que manipulam, já foram todas as outras, e em algum momento da sua vida sentiram-se capacitadas para vingar os velhos tempos. E estas pessoas podem ficar desconfortáveis se não conseguirem o que esperam, e acabam por mexer na própria consciência de uma forma que pode correr mal.

Às outras resta-lhes a capacidade de suportarem o resultado de tudo isto, esperando crescerem capacitadas para lidarem com as situações, caso contrário manipularão também.

E desmascarar uma fragilidade, torna a ideia muito pior do que ela é na realidade.

16 de Fevereiro, 2019

Reflexo ou reflexão?

David Marinho

O Tejo é, em grande parte do meu tempo, os meus olhos. Nele reflicto e sou reflexo de tudo aquilo que imagino que é ou que deveria ter sido. Não posso fazer muito mais do que faço, sobretudo porque não tenho oportunidade nem capacidade para mais.

O meu tempo, como de toda a gente, é curto demais. Desperdiçar é desperdiçar-nos, é não ter vontade de viver e logo eu que me sinto cheio de vida. Lisboa já não é nem menina nem moça, é mais meio aristocrata, ao alcance de alguns boys que fazem dela o Tio Patinhas da geografia portuguesa.

E é preciso ser-se inocente para conhecer, desvendar, encontrar. Não um experiente que já viveu tudo, que nada já serve o seu propósito.

O que vale é que o Sol desponta, dizendo-me que são horas de aproveitar.   

13 de Fevereiro, 2019

Encontros na Praia Grande

David Marinho

Praia Grande.

Não preciso estar mal para me sentir bem aqui. Há uma magia qualquer que me agarra a este espaço, que vai rebentando na areia e nos enche o corpo de sal, que permanece imutável e imprescindível. 

Descalcei-me e corri para o mar. Fiquei o tempo que foi necessário até esvaziar a mente e me encontrar, que é o que o Atlântico me oferece sempre. É um espaço de encontro com a natureza que nos traz e leva, connosco próprios.

Regresso. E levo o mar comigo.

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12 de Fevereiro, 2019

Sintam-se em casa!

David Marinho

Às vezes precisamos parar para pensar. Não há outra forma de viver as coisas: parar. refazer. avançar. E quando tem de acontecer, não há nada a fazer. Desta vez a obra morreu e tudo o que estava agarrado foi com ela. E de cada vez que penso nisso, penso na hipótese ténue de as coisas resistirem ao tempo só porque sim, sem auto-conhecimento, sem disciplina, sem sucesso. 

E Domingo à Tarde chegou a esse ponto sem retorno. A obrigação de alimentar um ego puramente digital era perda de tempo, de confusão, de falta de ideias, com uma necessidade gigante de parar. E o tempo não determina nada, porque quando não há mais a fazer, não vale a pena forçar.

Mas percebi que as coisas não existem por acaso, que as experiências que adquirimos na vida não são por acaso. As pessoas, a oportunidade de chegar a elas, de ajudar, de ouvir, de aconselhar e de ao fim do dia tudo valer a pena...não é por acaso. E não há nada que nos sirva melhor no corpo do que a utilidade que temos e da disponibilidade que oferecemos.

Domingo à Tarde voltou.

Esta é também a vossa casa.