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Domingo à tarde

21
Nov19

Tens tempo?

David Marinho
A chuva. 
 
O cheiro a terra molhada lá de fora.
 
O cheiro a café (moído na hora) cá dentro.
 
Um lar.
 
Pouca coisa é tão visual como viver. Não há nada que nos provoque tamanha sensação de liberdade e descanso do que poder viver.
Já nos chega ter de sair todos os dias para enfrentar o mundo com mil caras, com mil formas de ver as coisas, muitas vezes porque tem de ser.
Então agarro-me a isto, bucolicamente a isto. Como se fosse um ritual, uma forma de me convencer que existo, que ainda vivo.
Mas conseguir sentir isto é poder ter tempo para sentir. E falhamos muitas vezes isso.
Não temos tempo.
Não temos tempo.
Não temos tempo.
 
E precisamos. Tanto.

 

20
Nov19

Fodem tudo

David Marinho

A linguagem é tão perigosa

Que consegue ser indecente.

Fodia-te como me fodem os dias

E dito assim, assusta. Estremece.

Não podes ser tu a dizer estas coisas porque tu não és assim.

Então não posso. É indecente, eu sou indecente e morre a possibilidade de ser livre.

É assim que se sentem os artistas das verdadeiras artes.

Conseguem através um bocado de merda fazer uma criação artística capaz de emocionar a mais relutante de todas aquelas pessoas venenosas que nos aparecem à frente, do qual duvidámos sempre que podiam deixar cair a máscara.

Mas depois roubam-lhes o ímpeto. 

Fodem tudo.

Luta.

 

19
Nov19

Filtro social

David Marinho

Está tudo doido.

Já me tinha habituado à ideia de que as coisas correm à velocidade da luz e que, para apanhar o comboio, bastava um movimento de sorte e ter força para aguentar o puxão.

O problema são os que ficam, que não querem saber da sorte ou do azar e montam o seu acampamento, destilando ódios pequenos que formam um bolo gigante que vai corroendo até ao estômago.

Ser feliz é estar bem. 

Não ser feliz é não estar bem.

E não estar é razão suficiente para procurar estar.

E quando olho à nossa volta, há quem não procure e tenha desistido até. Existem os que se isolam e os outros que fazem questão de partilhar a nuvem negra que as envolve.

E esses destroem o equilíbrio, o bem-estar das coisas, o normal funcionamento. A esses, embora poucos, não me interessa ter na minha vida. Então saio, desligo e deito fora. 

Cada um é responsável pelos seus actos, por deixar a sua boa marca.

E eu filtro, filtro, filtro.

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